Às vezes, a realidade parece sonho. Estava numa festa que há muito tempo eu não via. Em uma casa antiga, pé direito alto, salas espaçosas iluminadas por velas, com a luz necessária para dar o clima certo. Na sala maior, onde tinha um piano antigo encostado em uma parede, estava uma banda fazendo uma “groovera” de alto nível, com percussão estilo Fela Kuti. O som era alto, muita conversa e fumaça no ar. As pessoas dançavam enlouquecidamente, o clima era lisérgico. Estava meio tonto, pela bebida, ou pelo baseado, ou pelos dois, mais provável. Era diferente, me sentia leve e um pouco mole. Eram várias pessoas na mesma sala, estava meio abafado, mas era inverno, as janelas estavam abertas, por isso, a temperatura era ainda agradável. Uma movimentação constante. Fechei os olhos por alguns instantes e flutuei no som...senti alguém segurando meu braço. Abri os olhos, olhei para o lado e reconheci quem me segurava. Fazia muito tempo que não via Vanessa. Era uma morena um pouco mais baixa que eu, com um lindo quadril, ela estava de cabelo curto, o que ficava muito bem nela, graças ao seu lindo rosto. Quando há conheci, nós éramos adolescentes e sedentos por novas descobertas, em especial as sexuais. Fizemos muito sexo em um curto espaço de tempo e por razões que nem sei direito acabamos não interagindo mais. Até vi ela algumas vezes, mas sempre eu ou ela estávamos acompanhados. Ela falou algo no meu ouvido que não consegui entender, mas seus olhos deixaram claro o significado das suas palavras. Ela me puxou, nos demos às mãos e subimos para o segundo andar da casa. O fim da escada dava em um corredor com várias salas, apenas uma tinha porta: a ultima. As outras eram iluminadas com diferentes cores, todas bem opacas. Umas vermelhas e, outras verdes e enfumaçadas. Puxei ela para primeira sala de luz vermelha. Quando olhei nos olhos dela e abri a boca para proferir algumas palavras, ela imediatamente pôs o seu dedo indicador transversalmente na minha boca, depois retirou e me beijou. Para algumas pessoas há momentos que as palavras só atrapalham, eu concordo com isso. O beijo foi longo, como os de namorados que há muito não se viam. As minhas mãos flutuavam pelas curvas do lindo corpo de Vanessa num grande frenesi. Olhei em volta, havia muitas pessoas na sala. Ela percebendo minha excitação me puxou novamente. Fomos até a porta que estava fechada e eu abri. Era um banheiro bem antigo, como o resto da casa, com um corredor com três pias e quatro portas, tudo muito branco e limpo. Entramos em uma das portas e ela chaviou. Nem consegui ver bem o que tinha dentro, ela me encostou na parede, soltou o meu cabelo e disse:- Que bom que tu ainda tens cabelos compridos, acho lindo.
Ela sorriu e me deu um leve beijo na boca. Abaixou-se, abriu minha calça e com a mão retirou meu pau já rijo como uma tora. Ela o acariciava com extrema maestria e dava curtas lambidas que me enlouqueciam. Eu delirava de olhos fechados, quando de repente alguém começou bater na porta freneticamente e a chamar meu nome. Caralho!!!!! Agora não!!!!
Abri os olhos, estava deitado em uma cama sozinho. Olhei em volta...estava em casa.
- Fausto!!!! Fausto!!! Já é onze e meia, daqui a pouco não tem mais ônibus. Levanta mané.
- Já acordei meu, da um tempo.
Acordei de pau duro. Que sonho bom! Esses dias, ouvi um médico falar que os homens têm dezenas de ereções durante a noite e que isso só ocorre por que nossa mente vive intensamente os nossos sonhos, ela não separa o sonho da realidade. A diferença é que temos um mecanismo em nossos cérebros que não permite enquanto estamos dormindo que os impulsos nervosos gerados por nosso cérebro, durante um sonho, sejam transmitidos ao resto do nosso corpo. Porém, esse mecanismo pode falhar, daí aparecem as pessoas que falam durante a noite, se mexem e os sonâmbulos que saem caminhando por aí. Pensando nisso, cheguei à conclusão de que é melhor viver num sonho do que sonhar acordado. Talvez eu possa aprender a voar...
Levantei sem querer sair da cama. Era sexta e a noite seria boa, foi o impulso que meu cérebro deu ao meu corpo para sair de baixo das cobertas naquele frio. Já vestido saí do quarto e fui para sala, onde estava o Pedro com um baseado numa mão e uma caipirinha do nosso limão-bergamota, que dá em uma arvore que temos no pátio de nossa casa, na outra. Sei que algumas décadas atrás, a maioria das casas possuía pátios nos fundos com plantação de frutas, verduras, temperos e plantas para fazerem chás. Em muitas cidades do interior isso ainda é comum. Hoje em uma capital o que era algo dado pela natureza é um bem caro de mais para se dar ao luxo de consumir. Uma coca-cola com todas as suas fazes de produção, propaganda e embalagem é mais barata do que um suco natural. Acho que em uma cidade arborizada como Porto Alegre, deveríamos ter muito mais arvores frutíferas pelas ruas e nos parques. Por que não? Diariamente são colocadas fora milhares de frutas que estragam em supermercados e armazéns. Nós, humanos, não somos capazes de controlar a natureza? As arvores são só para fazer sombra e fotossíntese? Ou a natureza do homem é que não se controla? A maioria das pessoas apoiaria a idéia de arvores frutíferas espalhadas pela cidade, mas e “aquela” minoria?
Baseadinho fumado e caipirinha tomada, fomos morro abaixo em direção ao ônibus da noite. Fomos direto para o Bar do João jogar uma sinuca e nos encontrar com uns amigos. Mal chegamos e já fomos bem recebidos.
- E dae cambada vieram a pé? - Disse o Marcelo com aquele seu sorriso irônico no rosto.
- O Fausto com a mania de dormir antes de sair para noite, sempre é uma lêndea pra sair da cama.
- Não enche Marcelo, ta falando isso porque ta perdendo pro Alfredo. Hahaha. Qualé a boa da noite?
- Pois então, estávamos só esperando vocês. A festa é lá no casarão da praça do Alto da Bronze.
- Du caralho mano. Vamos pra lá então. – Consentiu Pedro feliz da vida.
Fomos direto e reto para a casarão do Alto da Bronze, Marcelo estava de carro. Ao descer do carro tive aquele sentimento de “déjà vu”. Ao entramos na casa o sentimento se mantinha. Casa antiga, pé direito alto, salas espaçosas iluminadas por velas, com a luz necessária para dar o clima certo. O som era alto, muita conversa e fumaça no ar. As pessoas dançavam enlouquecidamente, o clima era lisérgico... senti alguém segurando meu braço. Às vezes, o sonho parece realidade...
Fausto, realmente te gusta mutcho Shakespeare, y tb de milk shake! Jaja, muy bueno el conto!Besito, Juanita.
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