Acordei tarde naquele dia chuvoso. Era quinta-feira, uma da tarde, desempregado tem um cotidiano confuso. Recebi uma mensagem dizendo: “chega aqui em casa às 15h, que ta na mão”. Levantei com muita preguiça. Dias cinzentos como esse são propícios para ficar na cama com um bom vinho. A barriga roncava, não tinha nada para comer. Lavei o rosto. Juntei todas as “pontas” que encontrei e fechei dois fininhos. O mais “perninha de grilo” eu acendi e coloquei um som. O ultimo cd do Alice in Chains, combina com dias chuvosos. Terminei de fumar e sai porta afora. Eram dois ônibus até a casa do malandro. Ratiei, parei uma parada antes. Tive que caminhar. Sabia que era na Saturnino de Brito, na primeira rua à direita depois da sinaleira, na casa verde. Cheguei lá, bati na porta. Demorou alguns minutos e saiu uma senhora tossindo muito. Eu disse:
- Boa tarde, o Eloi está?
- Não ta não. O que você qué com ele?
- Tinha ficado de pegar uns dvds com ele agora às 3 da tarde.
- Ah ta. Ele teve que ir no posto de saúde buscar um remédio para mim. Saiu faz pouco – falou sem vontade.
- Humm. Ta bom então.
A senhora que tossia muito fechou a porta e seguiu para o que é que fosse que ela estava fazendo, arrastando os chinelos, que fazia barulho no assoalho de madeira. Caralho, me fodi! Olhei em volta, só tinha loja de autopeças e vidraçarias. Tinha que esperar em algum lugar. Vi um bar, mas as grades estavam fechadas. Informei-me com um tiozinho que estava em frente, que tinha jeito de curtir uma canha. Ele, sem titubear, disse que tinha uma sinuca na outra rua, logo dobrando a esquerda. Cheguei lá era uma birosca pequena com uma mesa de sinuca no meio, duas mesas de metal bem no canto, com as cadeiras encostadas na parede. Do outro lado da mesa de sinuca tinham quatro maquinas caça níquel, três desligas e uma ocupada com um tiozinho careca que jogava aquele jogo do Halloween e tomava uma cachacinha. O dono do bar sentado em uma das cadeiras encostadas na parede olhava a novela em uma TV minúscula. Pedi uma Brahma e me sentei. Ele levantou e foi buscar atrás do balcão, que ficava no fundo do bar, a cerveja. Observei que tinha um pôster do Brasil campeão de 2002 e comentei sobre futebol com ele, teria de ficar um bom tempo ali e precisava me distrair. O dono do bar não tava muito para conversa, disse duas palavras e se calou. Continuou vendo a novela. A cerveja tava morna, mas eu estava com sede e tomei sem problemas. Chegou um senhor, meio manco, cumprimentando:
- E ai Zeca! Achei que tu tava fechado até, nesse frio ta bom é de ficar na cama.
- Bem que eu queria, mas esse ai não larga dessa maquina, ta ai dês das 10. Não posso fechar.
É tão difícil arriscar na vida e apostar alto nela que, talvez, seja melhor mesmo seguir tranqüilamente a vida e deixar para arriscar somente o dinheiro. Se bem que pode ta faltando na casa dele.
- Zeca, vim aqui só buscar uma água e já vou embora, a mulher ta lá em casa esperando.
Os dois foram conversando para frente do bar e não escutei mais o que conversavam. Olhei para o relógio eram quase 4 da tarde. Vou ligar para esse cara. Paguei a cerveja e saí. Fui no orelhão e liguei.
- E ai Eloi, aqui é o Fausto. Que horas tu chega em casa?
- Porra meu, to fodido aqui numa fila no posto de saúde. Te mandei a mensagem dizendo que ia chegar pelas 5.
- Não meu, tu escreveu 15 horas.
- Bah véio. Foi mal. Foi um “1” a mais. Tu já ta ai em casa?
- To num bar perto. Ta acabando as unidades. Que horas tu chega?
- Daqui uma hora e meia to por ai.
- Putz. Ta meu. Vou te espera.
Desliguei puto da cara. Bom, já tava na casa do caralho, não tinha muito o que fazer. O que é um peido para quem esta cagado? Lembrei do fininho de “pontas”. Fui dar uma volta e fumei metade. Fez a cabeça. Resolvi voltar ao bolicho e tomar mais uma ceva. Olhei na carteira, tinha dinheiro para mais duas cervejas e para as 50g. O bolicho dessa vez estava mais movimentado. Duas das maquinas caça níquel estavam ocupadas agora, o tiozinho careca continuava jogando. O senhor, meio manco, continuava lá também, agora tomando uma cuba libre e conversando com um outro senhor que não se entendia muito o que ele falava, chamavam-no de Sassa. Não sei se era pela falta de dente, muita cachaça ou se ele já tava meio loco da cabeça mesmo, mas ele embaralhava muito as palavras. Porém todos conversavam com ele e pareciam conhece-lo há muito tempo. Pedi uma cerveja e, dessa vez, levei uma das cadeiras para frente do bar e me sentei. A cerveja continuava morna. O senhor manco veio conversar comigo, falou de futebol e de uns problemas familiares que ele tinha. Logo chegou um veterano chamado Didi, que foi cumprimentado por todos, era no mesmo clima do Sassa, só que dos 8 dentes que aparecem na boca de uma pessoa que sorri, ele tinha 3, dois no canto direito e um bem no outro lado, também era difícil entende-lo. O senhor manco disse que essa hora todos vem para o bar. O Sassa conversava comigo e com o senhor manco, ele estava de aniversario, fazia 55 anos. Ia ter um sopão no dia seguinte para comemorar o seu aniversário. Vários que estavam ali já tinha se disposto a contribuir com algo no sopão do Sassa. Conversamos naturalmente, sem entender muito bem o que ele dizia. Logo o Sassa se foi. Uma tiazinha apareceu e cumprimentou todos, pediu um butiazinho e foi pro caça níquel. A essa altura já estava entrosado naquele ambiente. Senti-me bem relaxado, me distraia hora com a rua e hora com as pessoas do bar. Chegou um rapaz de uns vinte e tantos anos, com boa aparência. Pediu uma cachaça e foi para fila do caça níquel, três maquinas estavam ocupadas e a outra estragada. Ficou esperando um tempo, ninguém largava o jogo e ele intimou o Didi para jogar sinuca apostando a ficha. O Didi bebia um liquido amarronzado, que não me atrevo a arriscar o que era, escolheu seu taco e começaram a jogar. Era uma mesa pequena, com cinco bolas azuis e cinco vermelhas. O rapaz abriu o jogo fazendo uma bola, depois fez outra. O Didi resmungava algumas palavras de indignação por estar perdendo. Pensava eu, que covardia desse cara jogar com um tio completamente bêbado. O jogo seguiu, ficou empatado na ultima bola. E o Didi acabou ganhando. Os dois jogavam bem, percebi que o Didi conhecia as caídas da mesa e tinha calma nas horas decisivas do jogo. Ele ganhou mais três partidas. O rapaz desistiu e foi jogar caça níquel, já que a tiazinha já tinha se sentado e agora só degustava seu butiá. Pedi mais uma ceva e uma cachacinha de butiá, me deu vontade só de olhar a tia tomando. Nisso chegou outro veterano, era um senhor negro e só tinha um dos oito dentes da frente. Didi o convidou para jogar. O jogo também era de alto nível, tacadas impressionantes. Ficaram por uma bola os dois, o veterano negro ganhou dessa vez. Resolvi olhar o relógio no celular. Caralho, eram 7h30 da noite e tinha duas mensagens. A primeira “já cheguei, vem pra cá” e a segunda “demoro, vou pra Canoas”. Tomei mais uma cerveja, essa estava gelada, e fui para casa. Agora tinha só meio fininho...
- Boa tarde, o Eloi está?
- Não ta não. O que você qué com ele?
- Tinha ficado de pegar uns dvds com ele agora às 3 da tarde.
- Ah ta. Ele teve que ir no posto de saúde buscar um remédio para mim. Saiu faz pouco – falou sem vontade.
- Humm. Ta bom então.
A senhora que tossia muito fechou a porta e seguiu para o que é que fosse que ela estava fazendo, arrastando os chinelos, que fazia barulho no assoalho de madeira. Caralho, me fodi! Olhei em volta, só tinha loja de autopeças e vidraçarias. Tinha que esperar em algum lugar. Vi um bar, mas as grades estavam fechadas. Informei-me com um tiozinho que estava em frente, que tinha jeito de curtir uma canha. Ele, sem titubear, disse que tinha uma sinuca na outra rua, logo dobrando a esquerda. Cheguei lá era uma birosca pequena com uma mesa de sinuca no meio, duas mesas de metal bem no canto, com as cadeiras encostadas na parede. Do outro lado da mesa de sinuca tinham quatro maquinas caça níquel, três desligas e uma ocupada com um tiozinho careca que jogava aquele jogo do Halloween e tomava uma cachacinha. O dono do bar sentado em uma das cadeiras encostadas na parede olhava a novela em uma TV minúscula. Pedi uma Brahma e me sentei. Ele levantou e foi buscar atrás do balcão, que ficava no fundo do bar, a cerveja. Observei que tinha um pôster do Brasil campeão de 2002 e comentei sobre futebol com ele, teria de ficar um bom tempo ali e precisava me distrair. O dono do bar não tava muito para conversa, disse duas palavras e se calou. Continuou vendo a novela. A cerveja tava morna, mas eu estava com sede e tomei sem problemas. Chegou um senhor, meio manco, cumprimentando:
- E ai Zeca! Achei que tu tava fechado até, nesse frio ta bom é de ficar na cama.
- Bem que eu queria, mas esse ai não larga dessa maquina, ta ai dês das 10. Não posso fechar.
É tão difícil arriscar na vida e apostar alto nela que, talvez, seja melhor mesmo seguir tranqüilamente a vida e deixar para arriscar somente o dinheiro. Se bem que pode ta faltando na casa dele.
- Zeca, vim aqui só buscar uma água e já vou embora, a mulher ta lá em casa esperando.
Os dois foram conversando para frente do bar e não escutei mais o que conversavam. Olhei para o relógio eram quase 4 da tarde. Vou ligar para esse cara. Paguei a cerveja e saí. Fui no orelhão e liguei.
- E ai Eloi, aqui é o Fausto. Que horas tu chega em casa?
- Porra meu, to fodido aqui numa fila no posto de saúde. Te mandei a mensagem dizendo que ia chegar pelas 5.
- Não meu, tu escreveu 15 horas.
- Bah véio. Foi mal. Foi um “1” a mais. Tu já ta ai em casa?
- To num bar perto. Ta acabando as unidades. Que horas tu chega?
- Daqui uma hora e meia to por ai.
- Putz. Ta meu. Vou te espera.
Desliguei puto da cara. Bom, já tava na casa do caralho, não tinha muito o que fazer. O que é um peido para quem esta cagado? Lembrei do fininho de “pontas”. Fui dar uma volta e fumei metade. Fez a cabeça. Resolvi voltar ao bolicho e tomar mais uma ceva. Olhei na carteira, tinha dinheiro para mais duas cervejas e para as 50g. O bolicho dessa vez estava mais movimentado. Duas das maquinas caça níquel estavam ocupadas agora, o tiozinho careca continuava jogando. O senhor, meio manco, continuava lá também, agora tomando uma cuba libre e conversando com um outro senhor que não se entendia muito o que ele falava, chamavam-no de Sassa. Não sei se era pela falta de dente, muita cachaça ou se ele já tava meio loco da cabeça mesmo, mas ele embaralhava muito as palavras. Porém todos conversavam com ele e pareciam conhece-lo há muito tempo. Pedi uma cerveja e, dessa vez, levei uma das cadeiras para frente do bar e me sentei. A cerveja continuava morna. O senhor manco veio conversar comigo, falou de futebol e de uns problemas familiares que ele tinha. Logo chegou um veterano chamado Didi, que foi cumprimentado por todos, era no mesmo clima do Sassa, só que dos 8 dentes que aparecem na boca de uma pessoa que sorri, ele tinha 3, dois no canto direito e um bem no outro lado, também era difícil entende-lo. O senhor manco disse que essa hora todos vem para o bar. O Sassa conversava comigo e com o senhor manco, ele estava de aniversario, fazia 55 anos. Ia ter um sopão no dia seguinte para comemorar o seu aniversário. Vários que estavam ali já tinha se disposto a contribuir com algo no sopão do Sassa. Conversamos naturalmente, sem entender muito bem o que ele dizia. Logo o Sassa se foi. Uma tiazinha apareceu e cumprimentou todos, pediu um butiazinho e foi pro caça níquel. A essa altura já estava entrosado naquele ambiente. Senti-me bem relaxado, me distraia hora com a rua e hora com as pessoas do bar. Chegou um rapaz de uns vinte e tantos anos, com boa aparência. Pediu uma cachaça e foi para fila do caça níquel, três maquinas estavam ocupadas e a outra estragada. Ficou esperando um tempo, ninguém largava o jogo e ele intimou o Didi para jogar sinuca apostando a ficha. O Didi bebia um liquido amarronzado, que não me atrevo a arriscar o que era, escolheu seu taco e começaram a jogar. Era uma mesa pequena, com cinco bolas azuis e cinco vermelhas. O rapaz abriu o jogo fazendo uma bola, depois fez outra. O Didi resmungava algumas palavras de indignação por estar perdendo. Pensava eu, que covardia desse cara jogar com um tio completamente bêbado. O jogo seguiu, ficou empatado na ultima bola. E o Didi acabou ganhando. Os dois jogavam bem, percebi que o Didi conhecia as caídas da mesa e tinha calma nas horas decisivas do jogo. Ele ganhou mais três partidas. O rapaz desistiu e foi jogar caça níquel, já que a tiazinha já tinha se sentado e agora só degustava seu butiá. Pedi mais uma ceva e uma cachacinha de butiá, me deu vontade só de olhar a tia tomando. Nisso chegou outro veterano, era um senhor negro e só tinha um dos oito dentes da frente. Didi o convidou para jogar. O jogo também era de alto nível, tacadas impressionantes. Ficaram por uma bola os dois, o veterano negro ganhou dessa vez. Resolvi olhar o relógio no celular. Caralho, eram 7h30 da noite e tinha duas mensagens. A primeira “já cheguei, vem pra cá” e a segunda “demoro, vou pra Canoas”. Tomei mais uma cerveja, essa estava gelada, e fui para casa. Agora tinha só meio fininho...
reconheci essa historia...
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