terça-feira, 9 de março de 2010

Movimento

Em uma metáfora de Nietzsche ele fala “das três transmutações”. Como o espírito se torna em camelo, e em leão o camelo, e em criança, por fim o leão. Na metáfora o camelo representa o espírito forte que carrega a carga, que renuncia e é respeitoso. Ao submeter-se, o camelo, as agruras de sua condição, ele carregado corre para o seu deserto. E é no mais solitário deserto que ocorre a segunda transmutação: em leão se torna aqui o espírito, liberdade ele quer conquistar, e ser senhor do seu próprio deserto. Seu último senhor ele procura aqui: quer tornar-se inimigo dele e de seu último deus, pela vitória quer lutar com o grande dragão. Qual é o grande dragão que o espírito não quer chamar de senhor e deus? “Tu deves” se chama o grande dragão. Mas o espírito do leão diz “eu quero”. “Todo valor já foi criado, e todo valor criado – sou eu. Em verdade, não deve haver nenhum ‘eu quero’!”Assim fala o dragão. Criar liberdade e um sagrado. Não, mesmo diante do dever: para isso, meus irmãos, é preciso o leão. Como seu mais sagrado amava ele outrora o “Tu deves”: agora tem de encontrar ilusão e arbítrio até no mais sagrado, para conquistar sua liberdade desse amor: é preciso o leão para esse rapina. E por ultimo, a transmutação final: a inocência é a criança, e esquecimento, um começar de novo, um jogo, uma roda rodando para si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim. Sim, para o jogo do criar, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer-sim: sua vontade quer agora o espírito, seu mundo ganha para si o perdido do mundo – Assim falou Zaratustra quando passava pela cidade da Vaca colorida.
Nesse sentido, nietzschiniano, os artistas (no nosso caso, músicos) que fazem sua arte por que gostam e não têm tanto apego por resposta de publico e financeira, são eles as crianças da metáfora. Atingem um grau elevadíssimo de verdade e evolução com sigo mesmos. A luta diária por seu sustento é uma ferramenta, à medida, que sabe que seu motor é movido por outro “combustível”. E isso ninguém pode nos tirar! São tantos os que fazem por suas bandas e por seus projetos artísticos em nosso país - acreditar não parece ser mais um problema – porém, não é suficiente. Continuamos nos deparando com as dificuldades de estrutura e divulgação dos eventos. Nosso objetivo não é os problemas, mas, sim, as soluções. Portanto, a união de pessoas e interesses faz-se necessário para que se tenha um mínimo de condições para que as “crianças” possam fazer “arte” dignamente. Precisa-se de gestão, autonomia e propositividade de todos. Sem “disse-que-disse, buchicho não me faz feliz”. Como diria Black Alien “...Há três tipos de gente:os que imaginam o que acontece,os que não sabem o que acontece, e nós que faz acontecer. O bolo, glacê. Unidos à gente fica em pé. Dividido a gente cai. Quem falha cai. Um biribaibaibai. A colaboração do som é a carta na mesa...”.
Com informação, sabe-se que o Governo, produtoras e grandes patrocinadores pouco farão pela arte independente que, em principio ou com pré-conceito deles, não atinge o retorno financeiro que motiva o “incentivo” e apoio. E é por isso, que se espalham pelo Brasil coletivos ligados à arte com auto-gestão, produzindo festivais dos mais variados estilos. E no Rio Grande do Sul não é diferente. Muita coisa esta começando e outras estão se solidificando. A B.I.L.(Bandas Independentes Locais), de Canoas, é a prova do que falo. Foram 43 shows realizados desde abril de 2005 até janeiro de 2009. Mais de 70 bandas já tocaram, não apenas de Canoas, mas também de POA, Esteio, Sapucaia, Novo Hamburgo, Campo Bom, Gravataí, Terra de Areia, Blumenau (SC). 3 coletâneas foram lançadas (2006/2007/2009). E a coisa não para por aí. As iniciativas do coletivo B.I.L. cada vez mais se expandem para outras áreas, mas mantem o foco musical. No principio desse ano o coletivo Neunderground e o coletivo B.I.L. acertaram uma parceria onde todos os meses uma banda que faz parte do B.I.L. toca nos eventos do Neunderground e vice-versa. Possibilitando, além de uma integração, o aumento da rotatividade das bandas e fortalecendo os coletivos. Faça por você mesmo, liberte-se do grande dragão, e faça o que ninguém fará por você! Um abraço a todas as crianças, leões e camelos que nos apóiam.

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